| Abordagem
"Nas sociedades africanas pré-colonias,
de uma maneira geral, não existe distinção
entre sociedade e natureza. Tudo está untado, melado, sujo,
emporcalhado do sagrado, tudo é natureza. Não há
distinção. Até na organização
social, na qual o poder político se confunde com o poder
emanado do universo sagrado." (Julio Braga)
O segredo é um preceito sagrado nos cultos afro-brasileiros,
estando associado aos ritos iniciáticos que vão,
aos poucos, revelando para os adeptos desse sistema de crenças,
a cosmogonia do candomblé.
Não abordar o segredo e, ao mesmo tempo, não sonegar
a informação. Esse é o desafio! Sempre tendo
o cuidado para não revelar os fundamentos secretos do candomblé,
reservados apenas aos iniciados, um dos mais originais aspectos
dessa religião.
O documentário deve circular entre detalhes do cotidiano
e princípios essenciais. A compreensão do mundo
em que vivemos. O exercício da tolerância e do entendimento
do outro. Solidariedade e comprometimento. Futuro da comunidade
e da religião.A consideração ética
em relação a tudo isso tem papel decisivo na construção
da linguagem e é vital do ponto de vista da própria
estrutura da narrativa.
A linguagem do documentário tem como uma das linhas estruturais
a utilização da própria forma de expressão
e transmissão do candomblé, via orikis (poemas),
que mesmo recriados em português mantém características
como: frases curtas e cadenciadas, ritmo de acordo coma respiração
e o elemento melódico da tonalidade, que segundo Verger
é a forma como o conhecimento é transmitido na África.
Permeando toda a narrativa, como eixo estrutural, a história
de Lívia Ferreira, mãe-de-santo em formação,
que aos vinte e dois anos, faixa preta de karatê (2º
Dan), encontra-se no processo de assumir sua casa, sua roça,
seu axé. Motivo de "fuxico" para o público
interno (também uma forma de aprendizado) e verdadeira
preciosidade para o público fora do culto, que vai se confrontar
com a motivação, com a ação pré-instalação
de uma casa-de-santo. Um terreiro de Iansã, com a representação
de todos os orixás. Ilê Axé!
Uma biografia se fazendo, buscando uma abordagem sensível
e verdadeira, diferenciada mesmo, do tratamento do resto do filme.
Enquanto segue os passos de Lívia na formação
da sua casa, a câmera respeita o tempo, o segredo, a emoção,
e pontua o que é acessível. A história de
Lívia, suas lutas, seus desafios. Sacrifícios da
liberdade individual, o peso da solidão, a obediência
ao seu destino.
Tratar a trama com seriedade e carinho, pelo amor com que Lívia
encara suas responsabilidades. Ouve e sabe o quanto é grave
e severa a não observância dos preceitos. A necessidade
de liderar e impor sua autoridade com intensidade total e entrega
absoluta, ciente do dever de respeitar com rigor e precisão
as tradições.
A comunicação de Lívia, o que muda, como
age na relação com os seus "filhos". O
candomblé reverencia a ancestralidade, o princípio
da senioridade, o ensinamento dos mais velhos. Lívia é
o contraponto. O saber vem no momento de aprender, na obediência,
na hierarquia, no movimento cotidiano em seus mínimos detalhes:
o comportamento nos rituais, as formas de servir, de se trajar,
de dançar, de comer...
"Religião é cultura. A religião estática
perecerá. Como sinal dos tempos, não é mais
possível a prática da crença Orixá
sem reflexões, estudos e entrosamentos.Não podemos
ficar confinados no Axé. A tradição somente
oral é difícil. Os Olorixá têm que
se alfabetizar, adquirir instrução, para não
passar pelo dissabor de dizer sim à própria sentença".
(Mãe Stella)
Necessário avançar na comunicação,
entendendo o limite da transmissão de conhecimento baseado
estritamente na tradição oral - num mundo intermediado,
hoje, pela mídia. Novas formas de preservação
do saber, onde a oralidade é gradativamente substituída
por instrumentos cada vez mais sofisticados de anotações,
gravações mecânicas, e até mesmo leitura
informatizada.
"A tradição no candomblé é tão
dinâmica quanto a noção de mudança.
É como se pudéssemos pensar que alguma coisa fosse
capaz de mudar, permanecendo". (Júlio Braga)
Contrastes, confrontos e diferenças resultantes da dinâmica
da cidade pontuam o roteiro, onde tempos distintos - e espaços
diferenciados - convivem , complementam-se e se excluem. A vida
religiosa, o contexto urbano, o embate ecológico e a dinâmica
social envolvem mundos paralelos suscitando o diálogo,
ao mesmo tempo que a estigmatização e o complexo
exercício do convívio com essa multifacetada e provocante
realidade. É esse painel que, levando em consideração
a tolerância e a convivência como estão postas
nos marcos da sociedade local, permite apresentar as tensões
entre os distintos pontos de vista dos diversos "atores"
do mundo moderno, tematizando um cotidiano que escapa completamente
à leitura exotizante e empobrecedora que folcloriza, hoje,
a cultura baiana. |