E por onde começou o processo de preparação para fazer a voz da mãe de santo?
A primeira coisa que vi foi que não era uma narração "rapidinha". Eu tinha que assumir um personagem na medida em que assumiria a voz. Tive que envelhecer a voz. E não é fácil fazer isso. Tive que sentir emoção, o ritmo da fala a inflexão. Como iria dizer o texto em Iorubá, procurei um professor de Iorubá para aprender a pulsação do texto. Contei com a ajuda de Mãe Estela, que conversou uma tarde inteira comigo sobre a propriedade - adequação dos sons e palavras do texto. Eu gravei no mesmo local onde a cena do filme foi feita depois. Embaixo de uma árvore, debaixo de chuvarada. Pensei qual era o significado daquela árvore em nossa ancestralidade. Falei com o Márcio Meirelles, que fez a preparação do elenco do filme. Na horinha de gravar perguntei a Márcio - qual a idade de voz e emoção pra eu dizer "você sumiu". "Ele disse, com aquele jeito de menino, pois é, você mesmo some e quando aparece mãe Estela não fica perguntando, porque você sumiu". Ele me deu um toque e consegui fazer a cena - adequando a emoção e imagem vocal - a partir daquele toque. Síntese - acolhimento.
Além das aulas e da conversa com mãe Estela, teve também o figurino de mãe de santo pra fazer a cena.
A segunda pele de um personagem é a roupa. Fui vestida porque para fazer a voz tem que construir o personagem, estar inserida dentro do momento de vida dele. Uma vez fui gravar numa emissora e me deram um paletó para fazer personagem surfista. Me sentia estranha, dividida. Em cima de um jeito e embaixo de outro. Me senti mal como se estivesse mascarada. Eu não queria imitar o surfista, o propósito era assumir o surfista.
Um outro episódio que aconteceu comigo. Uma mãe de santo perdeu a voz e me procurou. Quando ela entrou estava com a roupa de mãe de santo, enorme. Eu não conseguia sentir a respiração dela com aquela roupa toda. Precisava tratar a pessoa, não a mãe de santo. Pedi pra ela vestir roupa de passeio e não de ritual, e consegui encontrar a razão da perda de voz. Depois que encontrei a voz orgânica, ela recuperou a voz como pessoa e voltou a se vestir com a roupa do ritual. Foi muito bonito porque ela recebeu o santo e transitou pela casa com a voz recuperada. A liberdade de expressão preservadas a partir da essência.
Ao meu ver o ser humano tem sub-personalidades. A vida é um equilíbrio delas. Fui procurar meu lado mágico, de mistério, e me vesti como achava que esse lado de mistério deveria ser . Me vesti baseada nos rituais que tinha assistido. A gente tem distanciamento artístico mas tem que assumir uma verdade humana. Prefiro acompanhar mente, corpo e fala . O comando é central. A fala é a conseqüência . O maior órgão da fala é o cérebro, bem administrado. Quando você consegue equilibrar a zorra toda é a glória.
E é bom ter a parceria de um diretor como Póla, que além de competente é amoroso. Dá a maior força e doçura ao dirigir um filme. No caso, O Jardim das Folhas Sagradas.
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