infraero
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
25 jul 2006
 
Curuzu de olho no cinema
 
 
Das janelas e marquises, da calçada, de cima dos muros. Pouco a pouco, naquele sábado de 22 de julho, uma multidão (1.300 pessoas, no cálculo da PM) se formou na ladeira do Curuzu para ver o início das filmagens do primeiro longa-metragem do cineasta Pola Ribeiro. Jardim das Folhas Sagradas teve sua tomada inicial em Salvador justo ali, onde os movimentos dos corpos sonoros do Ilê Aiyê reverberam toda a vibração, e caráter de resistência, da expressão negra. A magia do cinema lapidava os sorrisos, um a um, em sintonia harmoniosa com valores e tradições de uma Bahia de alma barroca e suas contradições com a natureza e sua gente.
Fotos: Henrique Andrade
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A caminhada no Curuzu reuniu
cerca de 1.300 pessoas

Agora quem olha é a câmera. Ela desenha a multidão colorida. O movimento se repete algumas vezes, várias vezes. Numa passeata, o Dia da Consciência Negra se reconstituía em cena. No nosso 20 de novembro, artistas, intelectuais e personalidades da comunidade afrodescendente encorpavam ao lado de Bonfim (Antônio Godi) o ato em prol do terreiro Ilê Axé Opa Ewe. Entre um plano e outro, dá pra ver o diretor com as mãos na cabeça. Calma, Pola! Agora vai. Corre daqui, corre dali. Tudo certo. A ansiedade dá lugar à satisfação. A ação conduz olhares pelos caminhos do universo de orixás e explana novo sentido aos espíritos guerreiros da sétima arte: alegria, alegria!

 

Pola Ribeiro (diretor do filme) e Antonio Luiz (diretor de fotografia)

Equipe de fotografia em ação
 
Na Senzala do Barro Preto flertamos com a beleza que dança, dança, solta e linda à espera do beijo. A cena do beijo primeiro entre Cora (Auristela Sá) e Bonfim, casal protagonista do filme. O espaço é apertado. A equipe é grande. A figuração extravasa o semblante faceiro. Luz ok? Vamos rodar? Dessa vez o movimento é preciso, mas Antonio Luiz Mendes continua com a câmera na mão. A câmera encontra as nuances de gestos sensuais e se aproxima das personagens. Está bonito, está bonito!, alguém comenta baixinho. O Ilê faz a trilha. Olhos nos olhos. Estava na hora. Beija!!!! Beija!!!!!!!, Pola gritou. E sorriu. O menino sorriu o sorriso que nascera há 15 anos, na escrita das primeiras linhas do roteiro que ali se fotografava em película.
 
Ainda não tinha acabado. As últimas cenas eram da festa. Câmera literalmente nos trilhos. Graça divide o palco com Lazzo. A intensidade distinta dos sons resultava em sublime simetria com o balanço da comunidade, que àquela altura já fazia parte de tudo o que estava acontecendo a sua volta. Lá fora a criançada se divertia e disputava pra ver quem comeu mais acarajé. Um diz que comeu dois. Outro conta vantagem, comi dois com camarão. Mas a menina de trança, que ainda abocanhava o quitute recheado com tudo que a baiana tinha no tabuleiro, apontava o escore final: papou 3. Estávamos todos saciados. Matamos a fome de cinema! Mas era só o primeiro dia.


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Folhas Sagradas / Ascom
Studio Brasil 2008 - Salvador - Bahia - Brasil