|
| |
Entrevista
com o ator Antonio Godi |
| |
| Ator,
antropólogo, professor da UEFS, Godi interpreta Bonfim,
personagem principal de Jardim das Folhas Sagradas |
| |
| A
carreira de Antonio Godi começa pelo teatro em 1968. No ano
do AI-5, o ator estreou em uma montagem teatral do clássico
de Ariano Suassuna, O Auto da Compadecida. Godi passou
à direção de espetáculos em 1977, quando
constituiu, ao lado de Cau Santos, Lia Espósito e Ana Sacramento,
o grupo Palmares Inãron. Dirigiu, durante os 80, peças
que marcaram a década, a exemplo de Ajaká, Iniciação
para a Liberdade (83), com texto em português e iorubá
assinado por Orlando Senna, Mestre Didi e Juana Elbein. Boca
de Sifu e Guetos: Retalhos Sangrentos são outras
montagens de destaque no período. |

Godi já trabalhou com
Pola Ribeiro em A Lenda
do Pai Inácio (87) |
Na
área musical, Godi atuou como produtor de Sine Calmon,
Jorge Papapá, os funkeiros Jorge Krunk e Paulinho Lima,
além do Agbeokuta, inclusive no show ecológico
que a banda de afro-jazz realizou em 1992 com Gilberto Gil no
Hotel Meridien.
Na televisão, o ator produziu programas para a TV Itapoan
e participou da minissérie Mãe de Santo
(Rede Manchete, 1990). No cinema, Godi já fez incursões
pelo curta-metragem, em tempos de Super-8, o média-metragem
(A Lenda do Pai Inácio / 87, de Pola Ribeiro),
e agora, com Jardim das Folhas Sagradas, prepara-se para
seu primeiro filme de longa duração.
|
| Nos
últimos anos, a vida de artista de Godi deu lugar à
rotina de professor. Ele integrou o elenco de Os Negros
(Carmem Paternostro / 1997) e escreveu o libreto de A Revolta
dos Malês, Uma Ópera Negra (2001/2002), que misturava
teatro, dança, cinema e o funk do grupo mineiro Berimbrown
sob a direção geral de Mestre Pitanga e elenco do
Balé de Arte Negra da UMES de São Paulo.
|
| |
Mas
é com o crédito de professor do Departamento
de Ciências Humanas e Filosofia da Universidade Estadual
de Feira de Santana que o antropólogo chega, aos 54
anos, ao papel de Miguel Bonfim, personagem principal do longa-metragem
de Pola Ribeiro. Pausa para a tese de doutorado, em desenvolvimento,
sobre o reggae baiano e para os escritos sobre cultura e identidade
negra. Na entrevista a seguir, Godi fala basicamente sobre
Bonfim, seu pensamento sobre o personagem e o intenso mergulho
que tem empreendido para vivê-lo.
|

Após 30 anos com visual
rasta: "topei cortar o cabelo" |
| Como
poderia ser definido o personagem Miguel Bonfim?
Bonfim é um negro baiano bem sucedido,
que trabalha no banco e demonstra competência a ponto
de ser o único negro daquela sala. No entanto, ele
convive com conflitos interiores profundos, que atravessam
também a vida doméstica. Há um conflito
subliminar ligado a grandes heranças que ele carrega
advindas de sua mãe. O santo de Bonfim foi feito
quando ele ainda estava na barriga. Ele veio ao mundo já
com compromissos. O personagem progressivamente se afasta
disso, mas tropeça lá na frente porque se
trata de uma herança importante.
De
que maneira esse tropeço é articulado
na trama?
Em um dado
momento ele conhece Castro (João Miguel), que desperta
nele novidades de algum modo relacionadas aos compromissos
com o orixá Ossain. Castro é ligado ao verde,
às ervas, às plantas, raízes. Mesmo
distante religiosamente do orixá, a compreensão
ecológica que vem com Castro, que é ecologista,
vegetariano provoca uma virada em Bonfim. Isso desperta
um sentimento de fascinação. Ele desenvolve
uma amizade que chega às raias do amor. A essa altura
Bonfim está carente, o casamento em crise. É
um homem que vive em conflitos e que de repente, vivendo
pequenas tragédias, percebe que tinha que assumir
o que herdou. Mas, para chegar a isso, enfrenta a cidade,
o banco, a si próprio.

Pola e Godi durante leitura do roteiro no
Teatro Vila Velha
(veja
matéria) |
Você
é hoje um cinquentão, professor
universitário. Protagonizar um longa-metragem
traz também um desafio pessoal? Bonfim aparecerá
no filme em fases distintas, mais novo, mais velho.
O filme não pode acontecer no Século
21 sem apresentar as marcas de seu tempo. Coisas como
o reggae ou o hip hop, a eletrônica, as identidades
transnacionais. Claro que fico um pouco tenso porque
tenho atuado pouco. Mas não foi difícil
encarar o desafio. Já no primeiro dia de trabalho,
saímos para fazer umas fotos e me pediram para
repassar algumas cenas, fazer uma leitura. Fiz e ficaram
surpresos. De algum modo aquilo já estava orgânico.
|
Que motivo o levou a aceitar este projeto?
Fui sendo seduzido a partir do roteiro
e da responsabilidade que ele revela. É um roteiro
sério, que toca em questões profundas. Assumi
o compromisso com o Pola há quatro anos, mas sempre
tive intimamente um senão por causa do cabelo. Tenho
dreadlocks há quase 30 anos. Meus filhos só
me conhecem assim. Mas topei cortar o cabelo, será
a minha contribuição. Fazer um filme é
um trabalho de equipe e minha preocupação
é criar, portanto há conciliação.
Meu laboratório tem sido de experiências diversas.
A consultoria do Raul Lody, por exemplo. Um simples contato
com essas pessoas do mundo mágico e você sai
impregnado. Estou fazendo um laboratório incrível
com o Mauro do terreiro Ilê Axé Opô Aganjú.
Você vê as coisas acontecendo magicamente.
| Como
está a rotina de ensaios? Os
ensaios começaram há dois meses e há
duas semanas tenho me dedicado ao filme quase que
integralmente. Ou estou ensaiando com o Pola, Marcio
Meirelles ou a Lia Mara, ou estou em casa estudando
os diálogos. Como o texto tem que ser muito
coloquial, tenho que colocá-lo no corpo para
tornar o subtexto poderoso. O personagem deve falar
como uma pessoa que existe.
Existe alguém
como o Bonfim na vida real?
É um personagem fictício,
mas que dá conta, levanta reflexões
e perguntas que a cidade grita para serem respondidas.
A cultura híbrida, a mistura de Salvador. Aqui
tudo é possível. Há segmentos
na minha própria família que jamais
se vestiriam como eu.
|

Imersão para viver o personagem inclui
laboratório
em terreiro de candomblé. |
Qual seria a sua grande referência cinematográfica?
Tem
a quase unanimidade de Glauber, inevitável. Chorei
quando vi Deus e o Diabo (64) pela primeira vez.
Mas o Nelson Pereira dos Santos (pausa). Ele tem um olhar
voltado para o umbigo brasileiro e a sensibilidade de fazer
Vidas Secas (63), com aquela sonoridade, aquele
preto e branco, Tenda dos Milagres (77) que, mais
que Jorge Amado, é uma grande narrativa para os orixás.
Em Como Era Gostoso o Meu Francês (71), ele
mostra que não é simplesmente canibalismo,
o humano comendo o outro. Ali há o homem oferecendo
seu corpo como sepulcro. Considero o filme uma bela exploração
a partir do descreveram Hans Staden e Jean de Léry.
Folhas Sagradas / Ascom |
|
|