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18 jul 2006
 
Entrevista com o ator Antonio Godi
 
Ator, antropólogo, professor da UEFS, Godi interpreta Bonfim,
personagem principal de Jardim das Folhas Sagradas
 
A carreira de Antonio Godi começa pelo teatro em 1968. No ano do AI-5, o ator estreou em uma montagem teatral do clássico de Ariano Suassuna, O Auto da Compadecida. Godi passou à direção de espetáculos em 1977, quando constituiu, ao lado de Cau Santos, Lia Espósito e Ana Sacramento, o grupo Palmares Inãron. Dirigiu, durante os 80, peças que marcaram a década, a exemplo de Ajaká, Iniciação para a Liberdade (83), com texto em português e iorubá assinado por Orlando Senna, Mestre Didi e Juana Elbein. Boca de Sifu e Guetos: Retalhos Sangrentos são outras montagens de destaque no período.

Godi já trabalhou com
Pola Ribeiro em A Lenda
do Pai Inácio
(87)

Na área musical, Godi atuou como produtor de Sine Calmon, Jorge Papapá, os funkeiros Jorge Krunk e Paulinho Lima, além do Agbeokuta, inclusive no show ecológico que a banda de afro-jazz realizou em 1992 com Gilberto Gil no Hotel Meridien.

Na televisão, o ator produziu programas para a TV Itapoan e participou da minissérie Mãe de Santo (Rede Manchete, 1990). No cinema, Godi já fez incursões pelo curta-metragem, em tempos de Super-8, o média-metragem (A Lenda do Pai Inácio / 87, de Pola Ribeiro), e agora, com Jardim das Folhas Sagradas, prepara-se para seu primeiro filme de longa duração.

Nos últimos anos, a vida de artista de Godi deu lugar à rotina de professor. Ele integrou o elenco de Os Negros (Carmem Paternostro / 1997) e escreveu o libreto de A Revolta dos Malês, Uma Ópera Negra (2001/2002), que misturava teatro, dança, cinema e o funk do grupo mineiro Berimbrown sob a direção geral de Mestre Pitanga e elenco do Balé de Arte Negra da UMES de São Paulo.
 
Mas é com o crédito de professor do Departamento de Ciências Humanas e Filosofia da Universidade Estadual de Feira de Santana que o antropólogo chega, aos 54 anos, ao papel de Miguel Bonfim, personagem principal do longa-metragem de Pola Ribeiro. Pausa para a tese de doutorado, em desenvolvimento, sobre o reggae baiano e para os escritos sobre cultura e identidade negra. Na entrevista a seguir, Godi fala basicamente sobre Bonfim, seu pensamento sobre o personagem e o intenso mergulho que tem empreendido para vivê-lo.



Após 30 anos com visual rasta: "topei cortar o cabelo"
Como poderia ser definido o personagem Miguel Bonfim?

Bonfim é um negro baiano bem sucedido, que trabalha no banco e demonstra competência a ponto de ser o único negro daquela sala. No entanto, ele convive com conflitos interiores profundos, que atravessam também a vida doméstica. Há um conflito subliminar ligado a grandes heranças que ele carrega advindas de sua mãe. O santo de Bonfim foi feito quando ele ainda estava na barriga. Ele veio ao mundo já com compromissos. O personagem progressivamente se afasta disso, mas tropeça lá na frente porque se trata de uma herança importante.

De que maneira esse tropeço é articulado na trama?

Em um dado momento ele conhece Castro (João Miguel), que desperta nele novidades de algum modo relacionadas aos compromissos com o orixá Ossain. Castro é ligado ao verde, às ervas, às plantas, raízes. Mesmo distante religiosamente do orixá, a compreensão ecológica que vem com Castro, que é ecologista, vegetariano provoca uma virada em Bonfim. Isso desperta um sentimento de fascinação. Ele desenvolve uma amizade que chega às raias do amor. A essa altura Bonfim está carente, o casamento em crise. É um homem que vive em conflitos e que de repente, vivendo pequenas tragédias, percebe que tinha que assumir o que herdou. Mas, para chegar a isso, enfrenta a cidade, o banco, a si próprio.


Pola e Godi durante leitura do roteiro no Teatro Vila Velha

(veja matéria)
Você é hoje um cinquentão, professor universitário. Protagonizar um longa-metragem traz também um desafio pessoal? Bonfim aparecerá no filme em fases distintas, mais novo, mais velho.

O filme não pode acontecer no Século 21 sem apresentar as marcas de seu tempo. Coisas como o reggae ou o hip hop, a eletrônica, as identidades transnacionais. Claro que fico um pouco tenso porque tenho atuado pouco. Mas não foi difícil encarar o desafio. Já no primeiro dia de trabalho, saímos para fazer umas fotos e me pediram para repassar algumas cenas, fazer uma leitura. Fiz e ficaram surpresos. De algum modo aquilo já estava orgânico.


Que motivo o levou a aceitar este projeto?

Fui sendo seduzido a partir do roteiro e da responsabilidade que ele revela. É um roteiro sério, que toca em questões profundas. Assumi o compromisso com o Pola há quatro anos, mas sempre tive intimamente um senão por causa do cabelo. Tenho dreadlocks há quase 30 anos. Meus filhos só me conhecem assim. Mas topei cortar o cabelo, será a minha contribuição. Fazer um filme é um trabalho de equipe e minha preocupação é criar, portanto há conciliação. Meu laboratório tem sido de experiências diversas. A consultoria do Raul Lody, por exemplo. Um simples contato com essas pessoas do mundo mágico e você sai impregnado. Estou fazendo um laboratório incrível com o Mauro do terreiro Ilê Axé Opô Aganjú. Você vê as coisas acontecendo magicamente.

Como está a rotina de ensaios?

Os ensaios começaram há dois meses e há duas semanas tenho me dedicado ao filme quase que integralmente. Ou estou ensaiando com o Pola, Marcio Meirelles ou a Lia Mara, ou estou em casa estudando os diálogos. Como o texto tem que ser muito coloquial, tenho que colocá-lo no corpo para tornar o subtexto poderoso. O personagem deve falar como uma pessoa que existe.

Existe alguém como o Bonfim na vida real?

É um personagem fictício, mas que dá conta, levanta reflexões e perguntas que a cidade grita para serem respondidas. A cultura híbrida, a mistura de Salvador. Aqui tudo é possível. Há segmentos na minha própria família que jamais se vestiriam como eu.


Imersão para viver o personagem inclui laboratório
em terreiro de candomblé.

Qual seria a sua grande referência cinematográfica?

Tem a quase unanimidade de Glauber, inevitável. Chorei quando vi Deus e o Diabo (64) pela primeira vez. Mas o Nelson Pereira dos Santos (pausa). Ele tem um olhar voltado para o umbigo brasileiro e a sensibilidade de fazer Vidas Secas (63), com aquela sonoridade, aquele preto e branco, Tenda dos Milagres (77) que, mais que Jorge Amado, é uma grande narrativa para os orixás. Em Como Era Gostoso o Meu Francês (71), ele mostra que não é simplesmente canibalismo, o humano comendo o outro. Ali há o homem oferecendo seu corpo como sepulcro. Considero o filme uma bela exploração a partir do descreveram Hans Staden e Jean de Léry.



Folhas Sagradas / Ascom

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