| O
que tem a dizer de sua participação no filme?
Estou muito honrado em fazer o Castro. É um homem
que antes de tudo é um humanista e também
questiona o mundo branco. O Brasil, por mais que seja aberto,
ainda tem muitos preconceitos. Fazer esse personagem tem
a ver com a quebra de preconceitos para a Bahia também,
que é carnavalesca, mas ainda muito moralista.
O encontro do meu personagem com Bonfim revela uma possibilidade
de transcendência dessas estruturas aprisionadas.
Ele vê isso no Bonfim, essa chama. Por mais que não
conheça o candomblé por dentro, ele sente.
Para mim, é um desafio grande e prazeroso.
Você já interpretou um homossexual
anteriormente?
Na série de tevê Carandiru e Outras Histórias
(Globo/2005), fiz o personagem Delson, que é casado
com um travesti, Madoninha (Roberto Alencar). Além
do sexual, da carne, esse aspecto da homossexualidade, no
filme, tem a ver com a coisa do encontro entre dois seres
independentemente do sexo.
Com tanta repercussão no cinema, como vai
a sua carreira teatral?
| Não
tenho como parar de fazer teatro. Não posso esquecer
de que Bispo (monólogo interpretado
pelo ator de 2001 a 2004) me lançou. Foram 90
mil espectadores em apresentações por
todo o Brasil, São Paulo, Rio, Ceará,
Pernambuco, Rio Grande do Sul, Acre, Brasília.
Procurei ali uma atuação autoral, como
os filmes que tenho feito, o que permite uma possibilidade
de diálogo interessante com os diretores. Neste
momento estou me permitindo fazer os filmes que me interessam.
Mas já recusei fazer outros talvez de repercussão
imediata para fazer as coisas que tenham a ver comigo.
O teatro é um ótimo campo de investigação,
de perguntas e não de respostas. E a figura do
ator pode ser vista como parte desse veículo.
Vou dirigir um monólogo com a Ludmila Rosa (atriz
que já foi apresentadora da MTV e trabalhou com
Antunes Filho) baseado na vida de Pagu. |

Em
Esses Moços, de José Araripe Jr, João
Miguel faz uma participação especial
vivendo seu principal personagem do teatro:
Arthur Bispo do Rosário.
|
Você sempre gostou de cinema?
Sempre fui um cinéfilo, não muito metódico
mas um apaixonado pelo cinema. Percebi que ali se poderia
dizer coisas com uma outra profundidade. Cinema traz coisas
do inconsciente. Já o teatro é mais da ação,
do gesto, do corpo. Entrevistei o Glauber quando tinha 10
anos (para o programa infantil Bombom Show, da
TV Itapoan, dirigido por Nonato Freire). Falei para ele
‘vou lhe perguntar uma pergunta’, então
ele me disse ‘e eu vou lhe responder uma resposta’.
Fiquei nervoso e falei ‘tá tudo errado’;
e ele ‘pra mim tá tudo certo’.
Houve alguma dificuldade em passar do palco para
o set?
Quando você tem o que dizer, essa adaptação
vem de maneira orgânica. Você descobre fazendo.
Mas é claro que no cinema menos é mais, o
que não quer dizer que exista uma fórmula.
Qual seu próximo projeto?
Depois de Jardim das Folhas Sagradas, vou rodar
em novembro o longa Tropa de Elite, de José
Padilha (Ônibus 174).
Folhas Sagradas / Ascom |