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03 julho 2006
 
Entrevista com o ator João Miguel
 
Ele se mudou para São Paulo há três anos, literalmente levado pela boa repercussão do espetáculo teatral Bispo, dirigido em parceria com Edgard Navarro. Nas telas, atuou em Eu Me Lembro, de Navarro, e Cidade Baixa (Sergio Machado). Com a destacada performance vista em Cinema, Aspirinas e Urubus, do pernambucano Marcelo Gomes, tornou-se o ator mais premiado de 2005, com direito a reconhecimento internacional.

Nos próximos filmes de Karim Ainouz (Rifa-me), Paulo Caldas (Deserto Feliz) e Sandra Kogut (Mutum), Miguel também marca presença. Dito assim, nem parece que o ator tem 29 anos de carreira teatral (36 de idade) iniciada com a montagem de O Cavalinho Azul, de Maria Clara Machado, no Teatro Castro Alves.

Sob direção de Pola Ribeiro, João Miguel interpreta o personagem Castro

Na entrevista a seguir, João Miguel fala sobre as duas linguagens, novos projetos e comenta sua participação no filme Jardim das Folhas Sagradas como o personagem homossexual Castro, ecologista militante, amigo do protagonista Bonfim.



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(Veja perfil do personagem em
PERSONAGENS).

 
O que tem a dizer de sua participação no filme?

Estou muito honrado em fazer o Castro. É um homem que antes de tudo é um humanista e também questiona o mundo branco. O Brasil, por mais que seja aberto, ainda tem muitos preconceitos. Fazer esse personagem tem a ver com a quebra de preconceitos para a Bahia também, que é carnavalesca, mas ainda muito moralista.
O encontro do meu personagem com Bonfim revela uma possibilidade de transcendência dessas estruturas aprisionadas. Ele vê isso no Bonfim, essa chama. Por mais que não conheça o candomblé por dentro, ele sente. Para mim, é um desafio grande e prazeroso.

Você já interpretou um homossexual anteriormente?

Na série de tevê Carandiru e Outras Histórias (Globo/2005), fiz o personagem Delson, que é casado com um travesti, Madoninha (Roberto Alencar). Além do sexual, da carne, esse aspecto da homossexualidade, no filme, tem a ver com a coisa do encontro entre dois seres independentemente do sexo.

Com tanta repercussão no cinema, como vai a sua carreira teatral?

Não tenho como parar de fazer teatro. Não posso esquecer de que Bispo (monólogo interpretado pelo ator de 2001 a 2004) me lançou. Foram 90 mil espectadores em apresentações por todo o Brasil, São Paulo, Rio, Ceará, Pernambuco, Rio Grande do Sul, Acre, Brasília. Procurei ali uma atuação autoral, como os filmes que tenho feito, o que permite uma possibilidade de diálogo interessante com os diretores. Neste momento estou me permitindo fazer os filmes que me interessam. Mas já recusei fazer outros talvez de repercussão imediata para fazer as coisas que tenham a ver comigo. O teatro é um ótimo campo de investigação, de perguntas e não de respostas. E a figura do ator pode ser vista como parte desse veículo. Vou dirigir um monólogo com a Ludmila Rosa (atriz que já foi apresentadora da MTV e trabalhou com Antunes Filho) baseado na vida de Pagu.


Em Esses Moços, de José Araripe Jr, João Miguel faz uma participação especial vivendo seu principal personagem do teatro:
Arthur Bispo do Rosário.

Você sempre gostou de cinema?

Sempre fui um cinéfilo, não muito metódico mas um apaixonado pelo cinema. Percebi que ali se poderia dizer coisas com uma outra profundidade. Cinema traz coisas do inconsciente. Já o teatro é mais da ação, do gesto, do corpo. Entrevistei o Glauber quando tinha 10 anos (para o programa infantil Bombom Show, da TV Itapoan, dirigido por Nonato Freire). Falei para ele ‘vou lhe perguntar uma pergunta’, então ele me disse ‘e eu vou lhe responder uma resposta’. Fiquei nervoso e falei ‘tá tudo errado’; e ele ‘pra mim tá tudo certo’.

Houve alguma dificuldade em passar do palco para o set?

Quando você tem o que dizer, essa adaptação vem de maneira orgânica. Você descobre fazendo. Mas é claro que no cinema menos é mais, o que não quer dizer que exista uma fórmula.

Qual seu próximo projeto?

Depois de Jardim das Folhas Sagradas, vou rodar em novembro o longa Tropa de Elite, de José Padilha (Ônibus 174).





Folhas Sagradas / Ascom
Studio Brasil 2008 - Salvador - Bahia - Brasil