| Os
setores da produção audiovisual na Bahia estão
mobilizados diante de uma constatação que se
cristalizou nos últimos meses por meio de prêmios,
orçamentos, cronogramas, montagens de equipe, ensaios:
o filme de longa-metragem volta a protagonizar a cena do cinema
baiano.
O Estado
vai abrigar, até dezembro de 2006, a realização
de seis longas, e vale destacar que, desse conjunto, quatro
projetos são de iniciativa totalmente local –
da criação do argumento à produção
executiva.
Sem ignorar as lacunas, numerosas,
de um processo histórico tão complexo como
o que caracteriza o nosso cinema, trata-se de panorama dos
mais animadores.
O dinheiro a ser injetado nas produções,
e que circulará pelos vários níveis
da cadeia produtiva, supera os R$ 7 milhões.
Experimento, pessoalmente, a satis
fação de ser autor de um dos projetos da temporada,
Jardim das Folhas Sagradas.
O filme parte de uma história
fictícia para tratar dos vínculos entre o
candomblé e a ecologia, uma questão bem real
e cuja concretude solicita, a cada dia, uma postura menos
passiva de soteropolitanos e baianos nascidos ou não
na terra de todos os santos.
Meu envolvimento com o tema remonta
a um documentário que eu faria há 14 anos
e que finalmente sairá junto com o longa-metragem.
Durante esse tempo, colecionei contribuições
valiosas – Gustavo Falcon, Antonio Risério,
Júlio Braga, Raul Lody, Luís da Muriçoca,
Vivaldo Costa Lima, Leopoldo de Ogum, Valdina Pinto, entre
muitos outros nomes.
Devo reconhecer que hoje tenho outra
visão de Salvador. A cidade me parece mais rica,
com capacidade de elaborar uma reação eficiente
ao bombardeio midiático que tende a engessá-la
no cartão-postal, pálido, de turismo e praia.
Ao mesmo tempo, do ponto de vista
de sua autorepresentação, não se renega
o dilema do novo versus o velho.
Os rasgos de modernidade que prometem
uma cidade em sintonia fina com os grandes centros internacionais
tanto transformam Salvador rapidamente quanto se somam aos
fortes vestígios de uma pólis quase medieval,
de modo a reinterpretar o caráter sincrético
de nossa expressão em novos patamares.
Devemos permanecer atentos à
linguagem das ruas, ao que há de natureza nas ruas,
às vegetações, e perceber como a feição
urbana interage com isso. Hoje, o mato para mim não
é só uma mancha verde.
Acredito que o candomblé pode
trazer fundamentos, resgatar o elo com o passado em que
tudo era natureza e ao mesmo tempo sagrado. Cabe perguntar
se essa compreensão está presente nos discursos
de nossa cidade.
Neste sentido, o filme Jardim das
Folhas Sagradas quer dar visibilidade e colocar em discussão
dilemas da população, preservar cultura e
tradição, assumindo um protagonismo perante
a defesa da natureza e da cidade de Salvador no sentido
mais amplo.
Pola Ribeiro
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