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16 maio 2006
 
Cinema, candomblé e folhas
 
Pubilcado em A Tarde - coluna Opinião
 
Os setores da produção audiovisual na Bahia estão mobilizados diante de uma constatação que se cristalizou nos últimos meses por meio de prêmios, orçamentos, cronogramas, montagens de equipe, ensaios: o filme de longa-metragem volta a protagonizar a cena do cinema baiano.

O Estado vai abrigar, até dezembro de 2006, a realização de seis longas, e vale destacar que, desse conjunto, quatro projetos são de iniciativa totalmente local – da criação do argumento à produção executiva.

Sem ignorar as lacunas, numerosas, de um processo histórico tão complexo como o que caracteriza o nosso cinema, trata-se de panorama dos mais animadores.

O dinheiro a ser injetado nas produções, e que circulará pelos vários níveis da cadeia produtiva, supera os R$ 7 milhões.

Experimento, pessoalmente, a satis fação de ser autor de um dos projetos da temporada, Jardim das Folhas Sagradas.

O filme parte de uma história fictícia para tratar dos vínculos entre o candomblé e a ecologia, uma questão bem real e cuja concretude solicita, a cada dia, uma postura menos passiva de soteropolitanos e baianos nascidos ou não na terra de todos os santos.

Meu envolvimento com o tema remonta a um documentário que eu faria há 14 anos e que finalmente sairá junto com o longa-metragem. Durante esse tempo, colecionei contribuições valiosas – Gustavo Falcon, Antonio Risério, Júlio Braga, Raul Lody, Luís da Muriçoca, Vivaldo Costa Lima, Leopoldo de Ogum, Valdina Pinto, entre muitos outros nomes.

Devo reconhecer que hoje tenho outra visão de Salvador. A cidade me parece mais rica, com capacidade de elaborar uma reação eficiente ao bombardeio midiático que tende a engessá-la no cartão-postal, pálido, de turismo e praia.

Ao mesmo tempo, do ponto de vista de sua autorepresentação, não se renega o dilema do novo versus o velho.

Os rasgos de modernidade que prometem uma cidade em sintonia fina com os grandes centros internacionais tanto transformam Salvador rapidamente quanto se somam aos fortes vestígios de uma pólis quase medieval, de modo a reinterpretar o caráter sincrético de nossa expressão em novos patamares.

Devemos permanecer atentos à linguagem das ruas, ao que há de natureza nas ruas, às vegetações, e perceber como a feição urbana interage com isso. Hoje, o mato para mim não é só uma mancha verde.

Acredito que o candomblé pode trazer fundamentos, resgatar o elo com o passado em que tudo era natureza e ao mesmo tempo sagrado. Cabe perguntar se essa compreensão está presente nos discursos de nossa cidade.

Neste sentido, o filme Jardim das Folhas Sagradas quer dar visibilidade e colocar em discussão dilemas da população, preservar cultura e tradição, assumindo um protagonismo perante a defesa da natureza e da cidade de Salvador no sentido mais amplo.



Pola Ribeiro

Studio Brasil 2008 - Salvador - Bahia - Brasil