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Studio Brasil
02 junho 2006
 
Entrevista com o diretor Pola Ribeiro
 
 
O cineasta Pola Ribeiro tem trinta anos de carreira. Quase metade desse tempo foi dedicada a concretizar o projeto Jardim das Folhas Sagradas, primeiro longa-metragem do diretor que está prestes a ser rodado, com Godi, Harildo Deda e Bando de Teatro do Olodum no elenco. As filmagens estão previstas para os meses de julho e agosto, mas desde abril Ribeiro trabalha intensamente na montagem da equipe técnica, escolha de elenco, ensaios, retoques no roteiro e na captação da parcela final de recursos para garantir o orçamento de R$ 2,4 milhões.
 
Na entrevista a seguir, concedida na sede de sua produtora, a Studio Brasil, no bairro Rio Vermelho, o realizador fala de sua persistência para finalmente chegar ao set, o envolvimento pessoal que travou com as questões relacionadas ao candomblé durante o processo de elaboração do roteiro e comenta a produção do seu longa-metragem no contexto do segmento cinematográfico baiano.
 
 
Como você chegou ao argumento do filme?

Juca Ferreira, quando secretário do meio-ambiente, me pediu um documentário que abordasse a relação entre candomblé e ecologia. Ele me deu um texto do (Antonio) Risério para roteirizar e pediu que eu fizesse um orçamento. Fiquei maravilhado com a história toda, fiz o projeto, mas aí Juca saiu da secretaria. Então eu disse a ele: ‘vou fazer um longa com essa temática’. Isso já tem 14 anos.

Após tanto tempo, você não correu o risco de partir para outra e dedicar-se a outro projeto? O primeiro longa vem sempre cercado de algumas pressões.

Quanto mais eu ouvia, menos eu sabia. Pensava ‘convivo diariamente com essas questões e sou totalmente ignorante’. Eu aprendi muito nesse tempo todo. Por isso esses 14 anos passaram rápido. Minha vida não parou. Fiz várias outras coisas enquanto tocava o projeto, fui me enriquecendo. São muitos filmes por trás do longa Jardim das Folhas Sagradas porque eu filmava cada entrevista. Não parei de fazer cinema. Eu pretendo fazer um documentário que investigue como essa religião convive com a natureza. Acredito que o candomblé pode trazer fundamentos, resgatar o elo com o passado em que tudo era natureza e ao mesmo tempo era sagrado. Cabe perguntar se essa compreensão está presente no discurso ecológico de nossa cidade. Meu filme quer reforçar esse elo e fazer com que o candomblé se sinta aliado, um defensor da natureza no sentido mais amplo.

Há oito anos, convidei Gustavo Falcon e Risério para trabalhar comigo e eles deram muitas contribuições. Na verdade, eu queria que eles escrevessem o roteiro. Acharam bacana, fizemos algumas reuniões, mas eles não escreviam. (José) Araripe acabou me aconselhando a escrever e eu levei a dica a sério. Fiz uma longa entrevista com o Julio Braga (antropólogo, pesquisador de cultura africana e atual diretor do IPAC) e finalizei uma primeira escrita do roteiro.

 
Tamanha demora está também relacionada ao espinhoso processo de captação de recursos, não? Gostaria de saber a trajetória seguida para compor o orçamento de sua produção?

Primeiro esclareço que ainda estamos captando para completar o orçamento. Tentei, em 2001, o edital do Governo do Estado e perdi. Em 2002 ganhei a bolsa da Fundação Vitae e aí pude me dedicar mais. Fiz várias entrevistas, pesquisa de locações. Conversei com especialistas como Vivaldo Costa Lima. Foi um momento muito importante porque pude me aprofundar. Em 2004, concorrendo com vários projetos, fui contemplado com uma verba (R$ 600 mil) do programa Petrobras Cultural que representa um quarto do orçamento. Recentemente por meio do Faz Cultura (programa de incentivo a produções culturais via renúncia fiscal do Governo do Estado da Bahia) conseguimos o patrocínio da Chesf.

 


Considero também muito importante as parcerias da Studio Brasil com empresas como a Conta Hábil (contabilidade), a Conspiradoria (administração de projetos), escritórios de advocacia. São coisas que sentimos necessidade em outras produções. Me associei a empresas locais da área cinematográfica que são de pequeno porte, como a DocDoma e a Araçá Azul. Então a perspectiva é abrir mais parcerias. De forma que esse pool de pequenas empresas que se juntam para fazer um projeto de certo vigor possa ter também uma postura grande.

Vamos buscar mais parcerias fora do estado e até fora do país. Mas parceiros que pareçam com a gente e não nos engulam na parceria. Nosso objetivo em estabelecer um diálogo de semelhança para reforçar o mercado audiovisual da Bahia.

E a sua trajetória pessoal nesse processo? Como filtrar esse grande volume de informações na elaboração fictícia?

Não preciso ser expert no assunto, tenho consultores como Lodi, o Bando de Teatro do Olodum. A demanda por conhecimento é minha. Para o filme propriamente, eu estou de olho nas coisas do cotidiano. Não estou antropologizando. Mas devo reconhecer que tenho outra visão da cidade hoje. Salvador me parece mais rica, não é só praia, não é só África. Estou atento à linguagem das ruas, do que há de natureza nas ruas, as vegetações, não a feição urbana. Hoje o mato para mim não é só uma mancha verde. Depois de conversar com a Valdina Pinto é impossível não pensar assim. Quando entro em contato com a cidade eu melhoro. Minha falta de ritmo fica mais sonora. Minha capacidade de repensar paradigmas aumenta.

Este filme é o processo mais rico de minha vida. Até 30 de agosto teremos rodado tudo, muita energia, esforço e criatividade concentrados num curto espaço de tempo. Minha sensibilidade está à flor da pele. Durmo cada dia menos horas, mas não sinto falta do sono. Acordo recarregado, ansioso pela realização. É muito trabalho, sim, mas também um privilégio.

Você poderia comentar algo sobre a formação da equipe de Jardim das Folhas Sagradas?

Equipe técnica e elenco somam quase 200 profissionais. No tamanho, a equipe técnica que montei é semelhante à de Três Histórias da Bahia (2002) e Eu Me Lembro (2005). O que cresceu é um departamento de comunicação mais estruturado, capaz de elaborar um discurso sobre o filme e que não apenas divulgue. Pensei numa comunicação competente desde o início já sabendo que não vamos ter uma verba grandiosa para lançamento, quando a visibilidade é fundamental.

 
Sua produção conta com profissionais de outros estados. Ante as dificuldades do mercado baiano não considera essa uma decisão polêmica?

Pessoas de fora que vêm trabalhar aqui elevam o nível de nossos profissionais. Um (José Miguel) Wisnik (diretor musical do longa-metragem), por exemplo, não disputa com o músico de Salvador. Ele acrescenta uma outra sensibilidade, já disse em música que é baiano, já gravou aqui. Wisnik está me ajudando a fazer uma lapidação desse bloco que é a música baiana.

Antonio Luiz Mendes é um fotógrafo de ponta do cinema brasileiro, e olha que nossa cinematografia é rica em fotógrafos. Além de íntimo do mercado baiano, ele me cativou pelo jeito de trabalhar, é uma pessoa que escuta bastante. Tanto ele quanto o Wisnik são escolhas de sete anos atrás e desde aquela época os dois toparam. São titulares absolutos.
 
Além da ecologia, Jardim das Folhas Sagradas trata de religião, cultura negra, tudo isso com um elenco majoritariamente afro-descendente. Como pretende evitar que tais elementos não resultem em uma abordagem folclórica?

Meu objetivo é criar um caminho dentro de outra lógica com os mesmos temas baianos. É claro que quero público, que o filme seja uma atração. É um desafio. Quem não quer tomar porrada fica quieto. Eu me sinto à vontade para fazer isso. A busca é escapar do estereótipo. Não quero falar de segredos, mistérios, mesmo sabendo que posso estar errando. Me sinto o braço cinematográfico dessa coisa que é o Ilê, no carnaval e na música, o Bando, no teatro. Se você me pergunta sobre o carnaval, digo que gosto do carnaval. O carnaval real, que tem reggae, samba, Mudança do Garcia.
Gostaria de pensar Jardim das Folhas Sagradas como um filme inclusivo, no sentido de que sejamos uma referência na cidade. Espero que as pessoas vejam o filme, discutam, gostem, não gostem, não quero que passe batido. Desejo que o filme mostre que aqui é um lugar especial. Quero que o filme seja um personagem da cidade, que a Suburbana veja meu filme. Mas o set não é simplesmente um parque de diversões. Quero falar, ser porta-voz de alguma coisa. Há uma pretensão, me sinto porta-voz da cidade. Esse é um desejo de verdade.

O protagonista Bonfim estaria, em algum nível, próximo de seu alter ego?

Ele é um pouco de Godi, Pola e muitos outros. O que acontece com o Bonfim da ficção está de fato acontecendo, neste momento, com vários personagens reais da cidade. Meu herói é um homem comum, qualquer um poderia passar pelo que o personagem passa. Seu poder é o de decidir, optar.

Studio Brasil 2008 - Salvador - Bahia - Brasil